A gente sabe que o amor raramente é simples. E é exatamente essa complexidade — aquela que confunde, que machuca, que deixa marcas difíceis de explicar — que alimenta décadas de rock britânico. The Cure construiu uma carreira inteira navegando por essa contradição. Agora, aos 23 anos, Olivia Rodrigo mergulha nesse mesmo território com you seem pretty sad for a girl so in love, seu terceiro álbum de estúdio, lançado nesta sexta-feira (12).

A trajetória de Olivia até aqui já dizia muito sobre quem ela é como artista. Saiu da Disney — passando por Bizaardvark e High School Musical: A Série: O Musical — e virou fenômeno global com SOUR (2021), um debut confessional que capturou as inseguranças da adolescência com uma precisão quase cirúrgica. Em GUTS (2023), aprofundou as referências ao pop punk dos anos 2000 e apresentou à geração Z uma sonoridade que marcou a juventude dos millennials. A cada disco, ela foi crescendo — e agora chegou o momento de encarar o que ela mesma chamou de seu primeiro ‘relacionamento de gente grande’.

Robert Smith, Glastonbury e um mergulho no pós-punk britânico

A conexão de Olivia com o rock britânico não é de hoje. Seu pai assistiu a mais de 30 shows do The Cure e chegou a chorar ao conhecer pessoalmente Robert Smith. Sua mãe preferiu ver o Korn no Lollapalooza a assistir à própria filha se apresentar. Esse background familiar moldou o ouvido da cantora desde cedo — e ficou evidente na produção do novo álbum, gravado em parte na Inglaterra.

O ponto de virada aconteceu no Festival de Glastonbury, em 2025, quando Olivia subiu ao palco ao lado de Robert Smith para cantar ‘Friday I’m in Love’ e ‘Just Like Heaven’. Depois de passar um tempo ao lado do músico, ela mergulhou ainda mais fundo no universo do new wave. O resultado aparece em toda a extensão do disco: em drop dead, há uma referência direta a ‘Just Like Heaven’; em what’s wrong with me, o próprio Robert Smith participa — a primeira colaboração oficial da carreira de Olivia; e ainda tem uma faixa chamada the cure, que, segundo ela, não foi pensada como homenagem, mas surgiu de forma espontânea no processo criativo.

Em entrevista ao podcast Popcast, do New York Times, Olivia contou que sua relação com Robert Smith se intensificou após a apresentação em Glastonbury e que passou parte da produção do álbum morando na Inglaterra — o que a aproximou ainda mais da tradição do rock britânico.

Estruturalmente, o álbum foi pensado em duas partes: a primeira retrata a experiência de estar apaixonada; a segunda revela as cicatrizes escondidas por trás desse encantamento. É uma escolha corajosa, porque não resolve nada — e essa é exatamente a intenção. Amor e tristeza coexistindo, sem que um precise eliminar o outro. Sem respostas fáceis, sem catarse limpa. Só a ambiguidade do coração funcionando a pleno vapor.

Isso é crescimento real. you seem pretty sad for a girl so in love não tem a raiva explosiva de SOUR nem o sarcasmo cortante de GUTS — tem algo mais difícil de carregar: a aceitação de que amar alguém não elimina o medo, a ansiedade ou a melancolia. Só os torna mais nítidos. Põe o fone, abre o coração e deixa o álbum fazer o resto.

🎧 Ouça you seem pretty sad for a girl so in love, de Olivia Rodrigo, em todas as plataformas de streaming.