Tem uma coisa que a gente aprende vivendo show: quando um artista chega em um palco e diz que não está sozinho, ele fala a verdade. E foi exatamente isso que Ferrugem fez ao receber a notícia da sua segunda indicação ao Latin Grammy com o álbum Sentimento.
A primeira vez foi em 2018, com Prazer, Eu Sou Ferrugem. Mas dessa vez é diferente. Não porque o Grammy seja mais importante agora, mas porque o próprio artista mudou. E isso importa. Muito.
Fazer pagode chegar a outros lugares (não sair do pagode)
A estratégia de Ferrugem nunca foi deixar o pagode para crescer. Pelo contrário. ‘Sempre quis chegar a outros lugares fazendo pagode’, confessa. Sentimento prova isso. O disco mantém a identidade que as pessoas conhecem, mas se permite experimentar, buscar outras referências, mostrar camadas novas da sua música.
E enquanto o álbum recebia o reconhecimento do Grammy, Arrependidaço explodia nas ruas, nos shows, na vida das pessoas. Tipo daquelas músicas que deixam de ser do artista e se tornam patrimônio de quem escuta. ‘Não existe número que explique completamente essa sensação’, ele diz. A gente entende.
Ferrugem é inteligente em algo que muita gente no mercado ainda não conseguiu absorver: o pagode nunca saiu. Quem achou que saiu é porque não estava prestando atenção. ‘Para quem está dentro, ele nunca foi embora. O pagode sempre teve público, sempre lotou show’. O que mudou foi o mercado finalmente olhar com atenção para uma força que sempre esteve aqui. E isso é importante diferenciar.
Quando um prêmio vira representatividade
Aqui é onde a coisa fica linda. Ferrugem não vê a indicação como um troféu individual. ‘Cada vez que o nosso gênero ocupa um espaço importante, tem uma história muito maior sendo contada’. Tem gerações de pagodeiros abriram caminho, tem artistas novos fazendo trabalho incrível, tem gente de sua geração levando a música cada vez mais longe.
Claro que ele quer ganhar — seria mentira fingir o contrário. Mas ele também sabe que estar ali, novamente, ao lado de artistas que respeita, já fala muito sobre o caminho que o samba e o pagode estão construindo. E não é um caminho que ele faz sozinho. Nunca foi.
‘Se esse caminho me levou novamente ao Grammy, quero chegar lá exatamente assim: fazendo pagode, representando a minha música e sabendo que não estou chegando sozinho’. Isso é tudo o que um show, um disco ou um prêmio deveria ser.