Assistir “Um Novo Dia” foi a sensação mais parecida com abrir uma HQ do Homem-Aranha que eu já tive no cinema desde a trilogia de Sam Raimi. E olha que essa é uma frase grande vindo de alguém que também guarda um altar particular pro segundo Aranhaverso do Miles Morales, que continua imbatível pra mim. Mas se contarmos apenas live-action? Esse aqui pode ter acabado de assumir um lugar no pódio dos melhores.

Crédito: Homem-Aranha: Um Novo Dia (Marvel De Bolso)


A trilogia do Jon Watts sempre teve um pézinho grudado no universo dos Vingadores, o Peter era o estagiário do MCU, o garoto que precisava provar valor pro Tony Stark e depois carregar o luto dele. Funcionava, mas era um filme de Vingadores disfarçado de filme de Homem-Aranha às vezes. “Um Novo Dia” corta esse cordão. Destin Daniel Cretton tira o personagem da sombra dos colegas de universo e devolve aquele tom mais solitário e mais intimista que sempre foi a marca registrada do Aranha nos quadrinhos, um herói que resolve os problemas com suas próprias mãos, sem grupo de apoio bilionário por perto.

E o diretor não acerta só no tom. As coreografias de luta carregam a marca de quem fez Shang-Chi e funcionam muito bem pra mostrar um Aranha mais raivoso e machucado. Tem também as referências às capas clássicas das HQs que eu achei sensacionais. A fotografia também ajuda: deixa uma Nova York mais fria e melancólica, quase espelhando o estado de espírito do Peter, e ainda assim entrega uns novos ângulos nos voos de teia entre prédios, muito inspirados na forma como a câmera acompanha o herói no jogo da Insomniac. Se você jogou Marvel’s Spider-Man 2, vai reconhecer a referência na hora.

Depois de “Sem Volta para Casa” apagar o Peter da memória de todo mundo, “Um Novo Dia” faz a escolha mais corajosa possível pro MCU, que é não ter pressa. Passam-se anos. Peter cresce sozinho, literalmente sozinho, enquanto assiste à vida de MJ e Ned pelos stories. Essa distância temporal é o coração do filme. Peter Parker passa a viver conflitos que qualquer adulto reconhece: se isolar, colocar o trabalho acima de tudo e deixar a própria saúde mental sempre para depois. Quem nunca, né. Ao colocar ele diante de um problema tão cotidiano, o filme torna o herói mais identificável, aproximando-o do público (se é que é possível aproximar mais no meu caso). Seus conflitos deixam de ser apenas os de um super-herói e passam a refletir dilemas que qualquer pessoa pode enfrentar. Era justamente essa humanidade cotidiana, uma das marcas mais fortes do personagem nos quadrinhos, que vinha fazendo falta aos filmes anteriores.

Mas nem tudo é perfeito. Tem uma peça clássica da vida do Peter Parker que ainda não apareceu. Uma coisa de que senti falta, e aí confesso que é mais birra de fã do que crítica séria, foi o Peter fotógrafo ralando para pagar as contas e vendendo foto de si mesmo pro Clarim Diário. O filme não deixa muito claro como ele se sustenta hoje em dia, se é bico com a polícia ou se é alguma herança que sobrou da Tia May. Um Peter apertado financeiramente, correndo atrás de freela de jornalismo enquanto combate o crime à noite, sempre foi parte essencial do personagem nos quadrinhos, e é a única camada de humanidade que ainda ficou de fora dessa versão mais madura.

Porém, essa não é a ausência que mais me incomoda. Cadê a evolução da MJ da Zendaya? Eu sigo sentindo que essa personagem não se encontrou. A gente sabe muito pouco sobre ela fora da órbita do Peter. A MJ da Kirsten Dunst tinha um background familiar inteiro, a relação difícil com os pais, o motivo de ela ser do jeito que era. A Gwen da Emma Stone também vinha com contexto próprio, era filha de policial, tinha características bem marcantes e uma vida inteira fora do namoro. Já a MJ da Zendaya continua muito coadjuvante do Homem-Aranha, aparece basicamente pra apoiar ele. Em compensação, e aqui mora o consolo, a química dos dois como casal é absurda, é química de marido e mulher mesmo (rsrs). Os dois juntos em tela são perfeitos. Sozinha, a MJ ainda deve muito. Mas tenho a sensação de que isso vem nos próximos filmes.

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Ainda assim, essas ressalvas não tiram o brilho do filme e a força dos seus principais acertos. “Um Novo Dia” fala sobre amizade sem discursar sobre amizade. Fala sobre como é importante ter com quem contar pra dividir os fardos e as alegrias da vida e sobre como você precisa encarar os problemas que moram na sua cabeça em vez de só colar um curativo em cima e seguir como se estivesse tudo bem. A própria Jean Grey, que a meu ver foi uma ótima escolha de antagonista e com uma bela atuação de Sadie Sink, funciona como um contraponto interessante a essa ideia. Assim como Peter, ela tenta carregar tudo sozinha, acreditando que precisa resolver os próprios problemas sem deixar ninguém se aproximar, e o filme mostra o quanto essa escolha pode ser destrutiva.

Quanto mais Peter tenta compensar o vazio mergulhando no trabalho e ignorando o resto da vida, mais os sentidos de aranha dele disparam. Parece só um efeito colateral dos poderes, mas me pareceu um burnout traduzido para a linguagem dos super-heróis. É raro ver um blockbuster tratando saúde mental como parte da jornada, e aqui funciona porque nasce da própria mecânica dos personagens: quanto mais eles tentam se virar sozinhos, mais se afundam.

E chegamos ao ponto que eu vim aqui defender com unhas e dentes: Tom Holland finalmente entregou o Peter Parker e o Homem-Aranha que a gente esperava dele desde o início. Não é pouca coisa dizer isso depois de duas eras tão marcantes. O Tobey Maguire sempre foi o Peter mais fiel aos quadrinhos, o nerd desajeitado, cheio de culpa e responsabilidade, mas o Homem-Aranha dele sempre foi meio sério demais pro meu gosto, sem muito daquele timing de piada no meio da porrada que faz o personagem ser tão especial nos gibis. Já o Andrew Garfield fez o contrário: o Aranha dele é praticamente perfeito, ágil, engraçado, ácido, mas o Peter por trás da máscara sempre pareceu descolado demais, meio deslocado do garoto tímido que a gente conhece.

Tom Holland, nesse filme, junta as duas metades. A maturidade que o roteiro dá pro personagem finalmente deixa aparecer o Peter nerd e isolado que sempre existiu ali, e ao mesmo tempo libera o Homem-Aranha com o senso de humor mais afiado. É o meio-termo que os outros dois filmes nunca acertaram ao mesmo tempo, e que aqui simplesmente acontece.

E não sou só eu aqui achando isso. A crítica em geral também recebeu bem o filme, com direito a Rotten Tomatoes estreando lá em cima e resenha atrás de resenha destacando exatamente esse tom mais adulto e intimista, destacando essa como a fase mais madura, emocional e complexa que Peter Parker já teve nos cinemas. Tem quem reclame, claro, sempre tem: alguns apontam que personagens demais disputam espaço e que o terceiro ato corre mais do que deveria, com um ou outro vilão que merecia mais tempo de tela. São críticas justas, assim como os pontos que levantei (acredito eu). Mas nenhuma delas diminui a força do que o filme constrói na relação do Peter com ele mesmo, que é, no fim, o verdadeiro assunto de “Um Novo Dia”. E talvez seja justamente por isso que, para mim, esse seja um dos melhores Homem-Aranha live-action até agora. “Um Novo Dia” não inventa uma nova fórmula. Ele pega coisas que outros filmes do personagem já fizeram bem, como o humor, as grandes cenas de ação, o romance, os vilões e o drama, e finalmente consegue fazer tudo isso coexistir sem deixar de lado aquilo que sempre foi mais importante: o Peter Parker por trás da máscara.

No fim das contas, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” não tenta reinventar o Homem-Aranha. Ele só lembra por que esse personagem atravessa gerações há mais de sessenta anos. Não é pelas acrobacias, pelas teias ou pelo uniforme. É porque, mesmo com grandes poderes, Peter Parker continua vivendo conflitos que qualquer um reconhece. Quando o filme entende isso, todo o resto encaixa. E não sei vocês mas eu quando estou cheia de problemas pra lidar, assim como nosso amigo da vizinhança estava, penso: “dorme que amanhã é um novo dia”. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do título do filme. Como diria o RBD “Otro dia que va para recomenzar” (Seria o Destin Daniel Cretton fã da banda mexicana? Fica aí o questionamento). Nesse filme, Peter finalmente aprende a fazer exatamente isso. Recomeçar. E que belo recomeço! Fazia tempo que eu não saía do cinema sentindo que tinha visto o Homem-Aranha de verdade.