Confesso: quase larguei O Segredo de Widow’s Bay. Não porque a série seja ruim, mas sim porque ela demora um pouco para mostrar quem realmente é.

Comecei a assistir à produção da Apple TV+ sem saber muito bem o que esperar. Me arrastei pelos dois primeiros episódios porque tudo indicava que eu estava diante de mais uma história de cidade amaldiçoada. Pensei seriamente em “abandonar o barco”. Sim, o trocadilho foi totalmente intencional.

Ainda bem que não fiz isso.

Widow’s Bay não muda de gênero no terceiro episódio. Ela finalmente conta para o espectador qual é a piada. A partir dali, o ritmo engrena, o tipo de humor que ela quer fazer fica muito mais claro e as homenagens aos clássicos do terror começam a aparecer com força. Foi ali que percebi que ela queria brincar com praticamente todos os subgêneros do terror, celebrar tudo o que veio antes e, de quebra, me fazer rir no meio do caos. E essa mistura de terror clássico com um humor absurdo e constrangedor funciona muito bem. Katie Dippold (a mesma de Parks and Recreation) parece ter decidido que neblina, maldição secular e reunião de prefeitura sobre turismo podem, sim, dividir a mesma cena sem brigar. E dividem.

A ambientação da ilha, com seus moradores excêntricos e um passado sombrio que insiste em voltar à tona, tem a cara de Stephen King. E essa neblina que cobre Widow’s Bay o tempo todo, carregando algo sobrenatural dentro dela, remete imediatamente a A Névoa, o clássico de 1980 do John Carpenter. Tem também praia que lembra Tubarão, figura mascarada andando devagar o suficiente para ser engraçada e assustadora ao mesmo tempo, e um episódio inteiro dirigido pelo Ti West (o cara de X e MaXXXine) construindo a lenda da ilha do zero no estilo horror folk. A série ama o terror que está homenageando, e dá para sentir a diferença entre quem usa o gênero só de plano de fundo e quem realmente é fã. O melhor é que essas referências nunca parecem feitas apenas para cinéfilos. Mesmo quem não identificar algumas delas vai entender e aproveitar a história do mesmo jeito.

Agora, mais uma confissão: eu só conhecia o Matthew Rhys de O Monstro em Mim, da Netflix, e tinha adorado o trabalho dele lá. Todo aquele drama pesado nos ombros, intensidade no olhar e aura de mistério. Então foi uma baita surpresa descobrir o lado cômico do cara em Widow’s Bay. Ele faz o prefeito Tom Loftis, um sujeito desesperado para ser levado a sério, tentando salvar a cidade com apresentações de PowerPoint enquanto o oceano cospe maldição em cima dele. E várias vezes ele me lembrou o Michael Scott, de The Office, aquele tipo de personagem que quer tanto ser respeitado que acaba virando engraçado sem nem perceber o próprio ridículo. Um dos meus tipos preferidos na comédia, e o Rhys manda muito bem nesse papel.

Mas se tem alguém de destaque nessa temporada, é a Kate O’Flynn fazendo a Patricia. Os episódios que giram em torno dela são meus preferidos disparado. Ela pega aquela figura que em qualquer outro terror seria só alguém descartável, a esquisita, a deslocada, a que ninguém dá bola, e a transforma no coração da série. E tem um episódio específico dela que lava a alma de quem curte slasher e vive gritando para a tela: “corre, sai daí, atira na cabeça, não entra na casa escura sozinha!”. Não vou me estender para não dar spoiler, mas é uma delícia de roteiro para quem já sofreu demais assistindo à gente burra correr na direção errada.

Outra coisa que me conquistou foi a própria cidade. Widow’s Bay não é só o cenário onde coisas estranhas acontecem; ela também é um personagem. Os moradores têm personalidades muito próprias, carregam seus traumas, seus segredos e um jeito quase conformado de conviver com o absurdo. Isso faz aquele lugar parecer vivo e transforma cada nova ameaça em um problema coletivo, não apenas em mais um monstro da semana.

No fim das contas, O Segredo de Widow’s Bay acerta justamente por não escolher um lado. É engraçada sem perder o medo, e assustadora sem trair a piada. Pega monstros, lendas, slashers, horror folk, criaturas misteriosas e humor constrangedor, coloca tudo na mesma panela e faz funcionar. O resultado poderia ser uma bagunça completa. Em vez disso, virou uma das melhores séries que assisti este ano.

E se existir uma cidade pior para morar do que Widow’s Bay, eu sinceramente não quero conhecê-la. Mas assistir ao caos do conforto do meu sofá enquanto rio da desgraça alheia? Aí eu volto para quantas temporadas forem necessárias.