Cinquenta anos de carreira não são contados em números — são sentidos. E quem esteve na Pedreira Paulo Leminski na noite do último sábado (13) sabe exatamente o que isso significa. Djavan chegou a Curitiba pela primeira vez naquele palco histórico e transformou o frio cortante da cidade num calor que só a música ao vivo consegue provocar.
O show ‘Djavanear – 50 Anos. Só Sucessos’ reuniu aproximadamente 23 mil pessoas num espaço que já recebeu nomes como Paul McCartney, Roger Waters e Guns N’ Roses. E, pela primeira vez, o alagoano de 77 anos que reinventou a MPB com jazz, samba e sofisticação harmônica fez sua estreia naquele anfiteatro natural encravado na pedreira de Curitiba — e esgotou os ingressos.
A noite começou com um detalhe que só quem estava lá vai lembrar: antes das luzes se acenderem, o público assistiu à estreia do Brasil na Copa do Mundo. Terminou o jogo, entrou a banda, tocou o instrumental de ‘Improviso’ — e os primeiros acordes de ‘Sina’ bastaram para que 23 mil pessoas virassem um só coro.
De ‘Eu Te Devoro’ a ‘Oceano’: uma viagem de cinco décadas em duas horas
‘Sina’, ‘Eu Te Devoro’, ‘Boa Noite’, ‘Cigano’ — o repertório caía uma por uma como peças de um quebra-cabeça que todo mundo já sabia montar. A banda que acompanha Djavan merece reverência: piano, teclados, metais, baixo, bateria, guitarras e vocais de apoio construíram arranjos sofisticados sem roubar nem um segundo do protagonismo das canções.
Mas o momento que parou a Pedreira foi outro. Djavan caminhou até a ponta da passarela, sentou num banco com o violão no colo e ficou sozinho diante de milhares de pessoas. O estádio inteiro pareceu diminuir de tamanho. Foi nesse silêncio que chegou ‘Meu Bem Querer’ — e a plateia assumiu a canção como se fosse dela. Logo depois veio ‘Oceano’, eternizada como trilha de ‘Top Model’, a novela de Malu Mader que foi um dos maiores ibopes da história da Globo. Centenas de celulares subiram ao mesmo tempo. Não precisou de estímulo nenhum.
A sequência seguiu com ‘Lambada de Serpente’ e ‘Mal de Mim’, mantendo a atmosfera intimista antes da banda voltar completa ao palco. E teve ainda um momento de forte carga emocional: a trinca ‘Azul’, ‘Açaí’ e ‘O Vento’ serviu como homenagem a Gal Costa, uma das maiores intérpretes da obra de Djavan. A lembrança de Gal emocionou a plateia e deu ao show o tom exato de uma celebração da história inteira da música brasileira.
A gente sabe que 77 anos e mais de duas horas de palco poderiam ser motivo de ressalva. Não foram. Djavan caminhou, ocupou a passarela, dançou discretamente para se aquecer no frio curitibano e manteve uma performance vocal consistente do começo ao fim. As pessoas na plateia comentavam, surpresas, sobre a disposição do cantor. Surpresas — mas no fundo, ninguém duvidava.
Não havia uma faixa etária predominante naquela Pedreira. Jovens, casais, famílias inteiras e fãs dos anos 1970 cantavam juntos, como se todos compartilhassem a mesma história. Porque, de certa forma, compartilham. Esse é o tamanho de Djavan.