A gente vê o anúncio, o fandom explode, os ingressos somem em minutos — e pronto, parece mágico. Mas trazer um grupo de K-Pop ao Brasil é, antes de tudo, uma guerra de bastidores que começa meses antes de qualquer data ser divulgada. E quem define quem sobe no palco aqui não são necessariamente os fãs mais barulhentos, mas sim quem faz a oferta mais agressiva.

Para entender como essa engrenagem funciona longe dos holofotes, conversamos com os principais nomes do mercado: Andre Matalon (Music On Events), Mideum Seo (K-BEAT), Laiza Kertscher (Highway Star), Patrícia Kazys (Far Music Entertainment) e a produtora Caren Murai. O que eles revelaram vai mudar sua visão sobre cada show que você já foi — e sobre os que ainda não aconteceram.

O leilão que ninguém vê: quem oferta mais, ganha a tour

Patrícia Kazys, diretora da Far Music Entertainment — responsável pelas vindas de Cha Eunwoo e P1Harmony ao Brasil —, foi direta ao ponto sobre como as negociações funcionam hoje:

‘Depende muito do artista. Hoje tudo é um leilão: quem oferta mais cachê ganha a tour. Depende muito da sua oferta.’

Além do lance mais alto levar a melhor, tem outro fator que transforma a rotina das produtoras locais em plantão permanente: o fuso horário de 12 horas com a Coreia do Sul. André Matalon, da Music On Events — produtora que assina o aguardado show do ENHYPEN em estádio, cuja negociação começou em setembro de 2025 —, sabe bem o que isso significa na prática:

‘Muitas vezes você recebe um e-mail às 6h da manhã e, se demora um pouco para responder, já passou da meia-noite na Coreia. Isso exige muita atenção e agilidade na comunicação.’

Laiza Kertscher, da Highway Star — pioneira com cases como BTS, Monsta X e KARD —, reforça que o ritmo oriental dita as regras do jogo também do lado de cá:

‘Eles acabam esperando que a equipe local siga um trabalho quase full time, mesmo com a diferença de fusos horários. Mas já nos adaptamos a esse estilo e conseguimos nos preparar com antecedência.’

Mas se o cachê já é um campo de batalha, ele nem sempre é o maior vilão de uma produção. O que frequentemente inviabiliza shows de K-Pop no Brasil é algo muito mais simples — e muito mais caro: a passagem aérea. Comitivas que passam de 20 ou 30 pessoas entre idols, dançarinos, maquiadores e técnicos cruzando o planeta inteiro representam um custo que pode superar o próprio contrato com o artista. Mideum Seo, Co-CEO e Produtor Principal da K-BEAT, abre os números reais:

‘Trazer esse mesmo artista para o Brasil significa, no mínimo, passagens aéreas de ida e volta que vão de 8 a 10 mil reais por pessoa em classe econômica, podendo chegar a cerca de 30 mil reais em classe executiva. O impacto não é apenas financeiro: há também o tempo que o artista precisa investir no deslocamento. Por isso, a maior dificuldade está justamente nesse custo duplo: o financeiro e o de oportunidade.’

Isso ajuda a explicar um dos maiores mistérios para os fãs brasileiros: por que o SEVENTEEN — com 11 anos de carreira, estádios lotados na Ásia e América do Norte e um dos fandoms mais organizados do mundo — nunca pisou no Brasil. Com 13 integrantes e uma estrutura de show massiva, a logística para trazer a comitiva completa cruzando o globo se torna um dos maiores desafios financeiros do mercado. Laiza Kertscher confirma:

‘Por vezes os custos das passagens para toda a equipe e artistas superam o custo do cachê e inviabilizam produções. Pelo tempo longo de viagem, muitos só optam por se apresentar na América do Sul quando estão em grandes turnês mundiais.’

Enquanto São Paulo segue como praça indispensável — por concentrar os melhores hotéis, aeroportos internacionais e arenas —, a K-BEAT está reescrevendo a lógica do mercado ao expandir as fronteiras. A empresa realizou uma turnê do grupo NTX por 13 cidades brasileiras, levando o K-Pop para João Pessoa e Belém, onde tocaram para 3 mil pessoas. Mideum Seo explica a estratégia:

‘A ideia não é reunir em São Paulo um pedacinho do fandom de cada cidade, e sim maximizar os fãs em todas as cidades, como faz um artista nacional ao rodar o país em turnê. É um ciclo virtuoso. Investimos pesado para rodar o Brasil inteiro; com isso, o artista ganha fama em âmbito nacional. O fandom cresce e é ao longo desse processo que a receita também se realiza.’

A K-BEAT já planeja trazer ao Brasil o cantor GAHO — conhecido pelas trilhas sonoras de Itaewon Class e Sorriso Real — entre agosto e setembro deste ano, além do grupo YOUNITE. O mercado de K-Pop no Brasil está longe de desacelerar. E agora você sabe exatamente o que está em jogo antes de qualquer ingresso ir à venda.