Existe uma cena de blues no Brasil que poucos conhecem — mas que Chicago já reconhece há anos. E agora, pela primeira vez na história, um grupo brasileiro entrou para a disputa mais importante do gênero no mundo inteiro.
O quarteto The Headcutters, de Itajaí (SC), foi indicado ao Living Blues Awards na categoria de Melhor Disco de Blues de 2025. A premiação é concedida pela revista americana Living Blues, fundada em 1970, e é considerada o verdadeiro Oscar do blues — um selo de autenticidade que vai muito além de qualquer parada comercial.
O disco indicado é o Bob is Back!, gravado em parceria com o baixista norte-americano Bob Stroger, aos 95 anos o bluesman mais longevo em atividade no planeta. É o segundo lançamento da banda pela lendária Delmark Records, gravadora de Chicago responsável por catalogar parte da história do estilo. A colaboração entre os brasileiros e Stroger começou em 2009 — e este álbum é o resultado mais maduro dessa parceria de quase duas décadas.
‘É o reconhecimento fundamental para a preservação do estilo. Estar no Living Blues Awards é como estar no Oscar do Blues; é o selo de autenticidade que todo artista do gênero almeja.’ — Joe Marhofer, gaitista e vocalista do The Headcutters
De Itajaí para Chicago: a trajetória improvável dos Headcutters
Formada no início dos anos 2000 por quatro amigos de infância — Joe Marhofer (gaita e voz), Ricardo Maca (guitarra e voz), Arthur Catuto (contrabaixo e voz) e Leandro Cavera (bateria) —, a banda construiu sua identidade sobre uma premissa séria: fidelidade histórica ao blues de Chicago. O nome é uma homenagem direta a Muddy Waters, Little Walter e Jimmy Rogers, que nos anos 1950 eram chamados de The Headhunters.
A seriedade do projeto aparece nos detalhes: amplificadores antigos, técnicas de gravação analógicas e sete discos no currículo. Em 2022, o álbum That’s My Name chegou à segunda posição no Living Blues Radio Chart, parada das rádios mais importantes do gênero nos EUA. O grupo também já se apresentou no King Biscuit Blues Festival e no Pinetop Perkins Blues Festival, nos estados do Mississippi e do Arkansas — endereços sagrados pra quem vive o blues de verdade.
Bob Stroger também concorre ao prêmio na categoria Artista de Blues do Ano, o que torna a parceria ainda mais especial: brasileiros e um dos últimos gigantes vivos do blues de Chicago disputando o Oscar do gênero lado a lado.
A votação — popular e da crítica especializada — está aberta até 15 de junho no site da Living Blues. A gente sabe que o blues brasileiro sempre existiu nas sombras. Agora é a hora de colocá-lo na luz.